Severino e a Sereia

Ele estava doente, febril, sonolento e mesmo assim preferia ficar sentado naquela pedra próximo ao lago. Gostava de observar a dança da água chocando entre as rochas.
Aquele som atordoado e ao mesmo tempo suave da correnteza o fazia pensar em tudo, via – inclusive – claramente seus erros em meio as imaginações, alucinações óbvias de alguém com doença mental.

O vento sussurrava em seu ouvido sons tentadores, ele lutava para não perder a concentração em cada cena que criava. Foi quando ela apareceu planando sobre a água, tão suave com seu sorriso encantador.
Onde está o vento agora? Por que nada se move? Por que insisto em aceitar essa imagem, essa criação? – Pensou.

A doença já o consome há quase seis anos, inclusive houve tempos em que o pobre coitado chegava a mendigar sorrisos, abraços, afeto. Ele de fato não entendia porque todos baixavam a cabeça quando ele passava. Ou porque ele não via traços nos rostos de outras pessoas, não conseguia identificar beleza igual aquela visão que ele tanto criou.

Roga, diariamente, um pedacinho de atenção. Mas o que fazer para ele uma simples ilusão? Se é uma imagem criada, diga-se de passagem, em vão.
Ele, pobre menino, hoje sonha apenas descansar. E tornar a dor constante em calmaria, sentir a vida e seus reflexos como algo meramente essencial. Sem sofrimento, sem hipocrisia, sem calor, nem frio e nem ventania. “A paz, então!” – Gritou a loucura dentro dele. “Faz desse momento teu trunfo, corre e salta até lá em baixo, mostra ao mundo tua coragem, pobre Louco.” – Finaliza.

Ao piscar os olhos tudo volta ao normal. Já ouve, portanto, o sons das águas torrenciais daquele riacho, já sente a pedra úmida, o vento teimoso e o sol, antes tenebroso, agora se esvai abraçando as nuvens de chuva.

(…)

E cai o primeiro pingo no chão.
Não da chuva… Da chuva não!

“O louco anseia por misericórdia a si, o louco tinge a sabedoria inocentemente, misturando-a até com alegria, felicidade e sofrimento… O louco é tão normal quanto o próprio ser normal, afinal… O que adianta ser normal em vão já que em questão de segundos o normal escolhe ser conscientemente louco?”

Ele estava doente, febril, sonolento e mesmo assim preferia ficar sentado naquela pedra próximo ao lago. Gostava de observar a dança da água chocando entre as rochas…

Por Cleyton de Paula
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Sobre sobreamente

Como um admirador nato da Arte e Cultura, analiso o mundo com base no comportamento humano e peço licença para expor a minha opinião. Costumo me enxergar como apenas mais um ilusionista nesse mundo tão caótico. Abraço!

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